Tem uma pergunta que ouço direto: "por que subiu o preço do arroz se a safra foi boa?". Muitas vezes a resposta não está na lavoura: está no câmbio. O dólar é o fio invisível que liga o preço da soja em Sorriso ao preço da gasolina em São Paulo e ao valor da sua cesta no supermercado. Vou puxar esse fio devagar, porque é ele que explica boa parte dos preços que a gente vê.
Commodity é preço global, mesmo quando é produzida aqui
Grande parte do que o Brasil produz também é exportado. Soja, café, açúcar, algodão, carne: tudo isso tem comprador lá fora, e lá fora se paga em dólar. Aí acontece uma coisa elegante e implacável: o produtor brasileiro só vende no mercado interno por um preço que seja competitivo com o que ele receberia exportando. Se o dólar sobe, a mesma tonelada de soja rende mais reais na exportação. Para segurar o grão aqui dentro, a indústria e o consumidor interno precisam pagar mais também. É a chamada paridade de exportação, e ela transforma o dólar num piso móvel para o preço de casa.
O caminho inverso também vale para quem depende de importados. Fertilizante, trigo, boa parte do pão, defensivos, peças: muito disso vem de fora. Dólar alto encarece o insumo, o insumo encarece a produção, e a conta chega lá na ponta. Por isso o câmbio aparece dos dois lados: no que exportamos e no que compramos.
O repasse não é imediato, mas é teimoso
Um erro comum é achar que o dólar sobe hoje e o preço no mercado sobe amanhã. Raramente é tão rápido. Existe uma defasagem: contratos já fechados, estoques comprados a preço velho, concorrência que segura o repasse por um tempo. Mas é teimoso. Se o câmbio se instala num novo patamar, mais cedo ou mais tarde os preços se ajustam. O varejo costuma repassar a alta com pressa e a queda com preguiça. É a famosa assimetria que todo consumidor já sentiu na pele.

Onde o dólar aperta mais
Nem todo produto sente o câmbio com a mesma força. Vale um mapa rápido:
- Sente muito: soja, café, açúcar, algodão, milho de exportação, carne (commodities com preço formado no mercado global).
- Sente pelo insumo: frango, ovos e suíno, que dependem de milho e farelo; combustíveis, atrelados ao petróleo em dólar.
- Sente pouco no dia a dia: hortaliças e frutas de consumo interno e ciclo curto, onde clima e frete pesam mais que o câmbio, embora nada fique totalmente imune.
Repare que até quem não exporta é afetado por tabela. O boi gordo é vendido em grande parte aqui dentro, mas a exportação de carne puxa a demanda e o milho da ração dança com o dólar. Tudo conversa.
Que dólar é esse, afinal
Quando falamos "o dólar", geralmente é o dólar comercial, a taxa usada em operações de comércio exterior. Existe ainda a PTAX, a taxa oficial de fechamento calculada pelo Banco Central do Brasil a partir de uma média das negociações do dia; é ela que serve de referência para contratos e liquidações. No nosso site, a cotação da moeda americana traz a comercial ao longo do dia e o fechamento oficial do Banco Central. Se a diferença entre um dólar e outro te confunde, o guia sobre Cepea, B3 e PTAX separa cada sigla.
E o euro, entra nessa conta?
O euro importa, mas menos, porque a maior parte das commodities é cotada em dólar no mundo todo. Para quem negocia com a Europa ou viaja pra lá, aí sim a moeda europeia manda. Escrevi um comparativo sobre quando olhar o euro e quando olhar o dólar; vale para não trocar as bolas na hora de decidir. Para o preço da cesta básica, porém, é o dólar quem dá as cartas.
Um episódio que mostra a engrenagem
Pegue o intervalo em que o real se desvalorizou forte, com o dólar saltando de patamar em poucos meses. A soja e o milho, cotados em dólar no mundo, dispararam em reais mesmo com boa colheita por aqui: o produtor comemorou, o consumidor de frango e de carne sentiu a ração encarecer, e o pão subiu porque o trigo importado ficou mais caro. Nenhuma quebra de safra explicava sozinha aqueles preços; a régua tinha mudado de tamanho. Quem olhou só a lavoura ficou perdido. Quem cruzou preço com câmbio entendeu na hora. É esse tipo de leitura que o histórico de preços ajuda a fazer: separar o efeito do câmbio do efeito da oferta.
O resumo que cabe no bolso
O dólar mexe no preço de quase tudo porque quase tudo o que o Brasil produz ou compra tem um pé no mercado global. Sobe o câmbio, sobe o piso de quem exporta e o custo de quem importa; cai o câmbio, alivia, ainda que com a tal preguiça no repasse. Não é a única força em jogo (clima, safra, frete e demanda também empurram), mas é a que mais gente subestima. Da próxima vez que um preço subir sem motivo aparente na lavoura, olhe primeiro para a tela do câmbio. Muitas vezes a explicação está ali.


